quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Que entrega é esta?

Todas as escolhas de um ser humano devem ser pautadas pela espontaneidade leve de uma decisão e não pela coação de um apelo."

Esta frase veio em minha mente quando atendia uma pessoa que, aos 47 anos, após anos e anos de infidelidade conjugal e trapaças com funcionários de sua empresa e negócios,  toma a posição em mostrar, a qualquer custo,  a esposa e as pessoas que conviveram com ele seu arrependimento e sua regeneração.

Chegou ao ponto de implorar perdão, atenção e crédito em seu “novo caráter”.

Bom, não entrando no mérito da questão, um aspecto me chama atenção. Fico impressionado com a quantidade de pessoas que, no auge de suas carências e sensações de abandono, são capazes de fazer tudo para ficarem livres do fantasma da rejeição.
Sim, porque alguém para tomar uma postura, quase que serviçal, a se curvar para um outro alguém, mesmo o outro dizendo “NÃO TE QUERO” e ainda assim você dizer: “MAS EU TE QUERO” é , no mínimo, chocante!

Você diria: “É AMOR!”
Eu exclamo! “AMOR???!!!”

Que amor é este que me faz esquecer que o outro também tem direito de não me desejar mais?
Que amor é este que me faz esquecer de que o outro também tem o direito de não acreditar mais em mim?
Que amor é este que me faz esquecer de que o outro tem seu próprio “time” (tempo), ritmo e momento para compreender os fatos?
Que amor é este que faz minha ansiedade falar mais alto e não esperar enquanto o outro reflete?
Que amor é este em que preciso mostrar ao outro de que ele(a) não encontrará outra pessoa nesta vida para amar como eu a amo?
Que amor é este onde preciso convencer que hoje serei mais dedicado que ontem?
Que amor é este que, em nome do mesmo, serei capaz de tudo, até de xingar, cuspir na cara e dar uns tapas?
Que amor é este que me faz MENDIGAR ATENÇÃO, CARINHO e SEXO?
Que amor é este em que penso: “SÓ SEREI FELIZ COM VOCÊ”, mesmo o outro dizendo: “Não”?
Que amor é este em que esqueço de mim mesmo, me anulo em favor de um suposto amor, esqueço de toda uma história turbulenta vivenciada com o tal amado(a) e me faz insistir em crer que tudo será diferente a partir de hoje.

Afinal a dor que sinto no peito é grande, o vazio é enorme, a falta não some,  a carência que sinto e a sensação de abandono insiste em não me deixar...

Bom, só me resta repetir a frase que mencionei logo acima, Todas as escolhas de um ser humano devem ser pautadas pela espontaneidade leve de uma decisão e não pela coação de um apelo.” 
Como andam seus apelos para a vida?
Meu abraço,
Jackson Garcia - Psicanalista
http://psicanalistajackson.blogspot.com/
(Brasília, Janeiro em tarde chuvosa - 2011)