sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Riscando no imprevisível


Há alguns dias estava pensando sobre o sentido e significado da palavra risco. Tratado com pouca simpatia pela maioria de nós, o risco raramente é assunto nas rodas de conversa ou no secreto das reflexões particulares.

Será que a razão disto se deve porquê a maioria de nós encare o risco como uma postura ou ação no qual seu resultado está mais ligado ao incerto que ao sucesso?

Segundo definições de dicionários, o risco pode ser definido como a possibilidade de algo acontecer.

Na experiência em lidar com pessoas, tenho percebido que a necessidade por garantias e certeza de sucesso, alegria, prazer, aplausos, vitrines (posição de destaques) e tranqüilidade são unanimidade para a maioria de nós. Mas é claro! Quem não deseja garantias nesta vida? Óbvio! E outra, a gente tem mais é que acreditar que vai dar tudo certo! “Mas que conclusão mais funesta!”. Diria você.

Acertos no mundo business, encontros glamorosos no amor, encontros picantes (bem apimentados), amizades saudáveis e leves, "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender", (velha canção popular), dentre milhões de outros exemplos: os desejos de um sucesso na vida, você sabe, transitam em áreas diversas - você tem os seus. A questão delicada, em todo o processo pela busca de satisfações e realizações na vida, é a incerteza e a incógnita que ela gera em nós. Ou você possui as garantias do sucesso?

Há alguns bons anos me flagrei pensando acerca dessa realidade e, em um primeiro momento, me impactei. O susto se deu porque a mente, em seus processos construtivos do pensar, trabalhava apenas com as categorias do sucesso. Não é assim com a maioria de nós? Ao pensar em ser um empreendedor, artista pop, profissional liberal, etc, deveria ser como aquele que iria prefigurar dentre os grandes figurões da vitrine. Ao imaginar se envolvendo com alguém, certamente haveria de ser com quem já estava preparado (a), pronto e no ponto!

Agora, bem mais imaginário que este processo mental que citamos, gerar sonhos de sucesso, é aquele que pensa, cria e planeja com as categorias do “bom comportamento” pautadas pela causa e efeito.
Deu para entender? Sabe aquele indivíduo, por se julgar bom, justo e coerente nutre a certeza de que o destino haverá de conspirar a seu favor. Ou se não aquele que por ter um caminhar honesto e conduta ilibada entre os que o cercam entende que a idéia de um insucesso na vida, é uma questão pouco provável. Há aqueles que olham para si e fazem uma espécie de auto-avaliação, tendo como referência outras pessoas nas quais julga ter uma vida moral, digamos, mais corrupta que a dele. Aí, claro, só SUCESSO para ele (a)!!!

Afinal, olhe a fórmula do sucesso: VIDA MORAL ILIBADA = MUNDO CONSPIRANDO A NOSSO FAVOR - só sucesso!!!

Vamos pensar um pouco mais.

Quais garantias temos nesta vida? Que atestado de segurança e confiabilidade você tem de que tudo que vier a fazer, sendo coerente, justo, bom, seguindo a cartilha das normas da ABNT" o sucesso será uma marca registrada em seu caminhar?

Aliás, o que é sucesso?

O que você define como alguém de sucesso? Pense!

Por prêmio de "bom comportamento", boa índole, quais serão seus desfrutes nesta vida?

- Bons amigos muito sinceros e verdadeiros com você?
- Garantias de que em "juntando as trouxas" com alguém, o tema separação não será pauta na vida do casal em momento algum?
- Por ser membro de um grupo religioso ou partidário de algum grupo filosófico, receberá tratamentos diferenciados, dignos de um predestinado ao SEMPRE SORRISO com privilégios nesta vida?

Em algum momento, já se deparou ao notar que, na realidade, temos muito pouco controle da vida, ou, quase nenhum? O simples ato de imaginar esta realidade já é capaz de gerar angústias terríveis para a maioria de nós, já que no fundo queremos ter o controle de tudo e todos. A gente só não assume, mas no fundo o desejo é controle. Controlar o choro, as emoções, reações, dor, medo, pânico, euforia... Fico aqui pensando, o que seriam dos oportunistas da fé alheia sem a insegurança das pessoas quanto ao próximo segundo? -“Ela virá, voltará, ganharei, perderei, o que Ele fará, encaminhará, conseguirá, etc..”.A ânsia por prever os eventos do próximo segundo tem tornado refém boa parte de nós. E que situação terrível, acabamos nos tornando reféns da especulação.

Alguns, ainda, se ancoram em pessoas que respondam e decidam por elas, e, que, se possível, apontem o caminho mais curto para a felicidade. “Faça assim, assim e assado que você verá como dará certo...

Bom, mas então, estou fazendo apologia em termos uma mente mais pré-disposta a pensar no "equívoco" que ao "acerto"?

Não!

Então a questão é vivermos a vida como num salto no escuro e “ver no que vai dar”?

Também não!

Meu desejo é estimular você a não se tornar refém de nada nesta vida. Nem do possível acerto ou do fracasso total. Até porque, pense comigo: de pouco valerá prever o próximo segundo da vida se neste processo, a tensão, ansiedade e angústias lhe roubarem o que há de mais precioso - paz interior. Fica um sofrer por antecipação sem fim.

Alguém talvez venha a indagar: "Este terapeuta pouco sabe acerca de bons pensamentos, boas energias, idéias positivas, afastar o mal olhado, pensar o bom, etc. Que figura mais pessimista!"

Eu, de fato, não sei de muita coisa nessa vida - é verdade. Mas assim lhe digo: BEM VINDO AO PLANETA TERRA AO MUNDO REAL!

Agora veja, por não ter garantias do CERTO, ACERTO e do CONTROLE, você entende que seria mais prudente evitar amar, tentar, crer, lutar e “suar a camisa”? Corremos o risco de amar quem no futuro não terá a mesma intensidade de entrega que nós ou negócios planejados não renderem conforme o calculo...

E agora?

Valerá a pena? - é um risco!

O que desejo pensar com você é que viver a vida não é celebrá-la a todo o momento dentro das categorias do conceito popular de triunfo, mas, viver sob a leveza de que o equívoco, engano, a adversidade, os “nãos”, são possibilidades tão reais quanto suas necessidades fisiológicas.

Agora, o bom senso e equilíbrio serão os balizadores capazes de impedir de nos colocar tendenciosos a ficar nos extremos, nos pólos como aqueles que arriscam tudo, sem avaliar possíveis conseqüências, ou daqueles que preferem não arriscar nada. Daqueles que crêem, inicialmente, em todo o que se apresenta como amigo ou daqueles que decidiram não crer mais em amizades saudáveis. O óbvio de tão óbvio que é quase sempre o ignoramos. Sobre a vida, ignoramos o seu curso imprevisível de ser, se mover, fazer acontecer e sua não linearidade. O “não” e o “sim” correm juntos nesta imprevisibilidade.

Aprende-se a viver quando...


-Aprendeu a viver aquele que encontrou prazer o desfrutar de sua conquista, mas embora tendo aquilo que mais almejava, sabe que tudo é possível na vida, até o não ter mais;
-Aprendeu a viver aquele que encontrou no amor (não hollywoodiano) uma motivação a mais a prosseguir na vida e que forma melhor não há para entenderemos o sentido da palavra imprevisível do que conviver com gente, pessoas;

-Aprendeu a viver aquele que vive o dia chamado hoje e o celebra sem a expectativa demasiada em desejar saber se os dias seguintes haverão de ser melhores que o dia de hoje.

Qual sua relação com o RISCO? Já arriscou muito na vida, amor, negócios, amizades, contratos de negócios, fé, etc. Seu nome é risco ou você é adepto ao "melhor um pássaro na mão do que dois voando"?

Aproveitando de um termo muito usual no mundo econômico-corporativo. Em se tratando de risco, qual é o seu perfil? Agressivo ou moderado?

Pense!

Meu abraço,
Jackson Garcia - Psicanalista Clínico
http://psicanalistajackson.blogspot.com 
www.jacksongarcia.com.br